Uma Viagem Ao Coração do Pensamento
Quando vi o livro na livraria Cultura me chamou a atenção o fato de ter um sapo na capa. Pensei "-Quem correria o risco de ter o seu livro associado a imagem repulsiva de um sapo?". Depois olhei o subtítulo: "Uma Viagem Ao Coração do Pensamento". Peguei para ler a contracapa e a orelha. Me encantei! Pedi de presente de Natal e ganhei. Li hoje.
Imagine escrever um livro supondo que um sapo pensa e humanizar essa criaturinha? Não é uma coisa simples, mas J.C. Michaels consegue, e faz isso de uma forma encantadora.
Firebelly é um sapo que nasceu só com dois pés, ao invés dos quatro que todos os sapos tem. Fica frustrado, pois todos os outros sapos pulam mais alto, nadam mais rápido e comem a comida muito antes dele conseguir saltar em cima dela, o que o faz pequeno e magrinho se comparado ao resto. Você conseguiu sentir pena dele, não é? É o típico caso do menino pequeno do colégio que apanhava do valentão, né? Pois é! Mas ele é um sapo!
Em dado momento ele é levado para uma loja de animais, onde encontra um sapo mais velho e sábio, que faz com que ele veja a falta dos dois pés com outros olhos, e coloca na cabecinha dele outras idéias, como por exemplo a da liberdade. O que fazer diante de tantas opções? Continuar na loja de animais é uma opção, mas quem não é vendido sempre corre o risco de ser dado de alimento ao Senhor Cobra. Ir para uma casa como um bichinho de estimação é outra: um aquário só para ele, cheio de pedras, plantas, água, lodo, grilos que ele não vai precisar dividir com ninguém e carinho de um dono, além da possibilidade de retribuir esse carinho cuidando do dono também. A outra e mais tentadora opção é liberdade: nadar livremente por pântanos, a convivência com outros sapos livres, sentir a adrenalina de fugir de um Senhor Cobra, dar mais valor a comida depois de passar dias com fome... Qual decisão o sapinho toma?
Firebelly é um sapo que poderia ser eu, você, ou qualquer outra pessoa. Nós humanos também não passamos pela dúvida de continuar em segurança (seja na casa dos pais, seja em um emprego, seja com um namorado, seja morando em um país) onde e como estamos ou encarar o desconhecido?
Esse livro tem um estilo que eu costumo chamar de "Filosofia Para Leigos". O autor te faz pensar no existencialismo de uma forma tão tranquila e agradável que você nem percebe. É um livro que você deve ler várias vezes, em várias idades diferentes, pois você sempre entenderá mais coisas e de forma melhor e diferente a cada vez que ler. Posso descrevê-lo assim: é um livro que você termina de ler e sente bem. Você se sente acolhido no mundo e sente que outras pessoas tem os mesmos problemas que você e te entendem.
Quem me conhece sabe que eu sou aquela menina nojentinha que detesta qualquer bicho que não seja gato e cachorro, e que pra eu indicar um livro que conta a história de um sapo, o livro realmente deve ser bom! Se você conseguir superar a repulsa das primeiras 10 páginas e se deixar envolver pela história, tenho certeza que será uma experiência que valerá a pena.
Como sempre, colocarei aqui um trecho que eu gostei muito (apesar de não ser o que eu mais gostei, porque o que eu mais gostei é spoiller):
"Às vezes, hesitamos por um momento demasiadamente longo. A oportunidade passa como uma folha flutuando à nossa frente, levada por um rio que corre muito rápido. Paramos à margem tendo apenas uma única chance de agarrar essa folha. Praticamos nosso ritmo flexionando as pernas em direção ao rio, agarrando a água no local onde imaginamos que a folha vai passar. Ensaiamos isso tantas vezes, dia após dia, e ganhamos confiança na nossa técnica. E então, quando a folha aparece, hesitamos; começamos a considerar, um momento mais, o que aquilo significa, temos receio de que nossos pés escorreguem na beira do rio... e lá se foi ela!"
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